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Anabolizantes: os riscos para o coração e para a saúde, segundo os estudos

O que os estudos mostram sobre esteroides anabolizantes: mais infarto, insuficiência cardíaca e mortalidade, alterações de pressão, colesterol e fígado, e testosterona baixa depois de parar.

Dr. Carlos O. MagnoMédico · CRM-SP 270302 · Residente em Medicina Esportiva — USP
Anabolizantes: os riscos para o coração e para a saúde, segundo os estudos

Resposta rápida

  • Em 11 anos de acompanhamento, usuários de anabolizantes tiveram cerca de 3 vezes mais infarto e insuficiência cardíaca do que homens da população geral, e quase 9 vezes mais cardiomiopatia.1
  • A mortalidade foi 3 vezes maior entre usuários flagrados em academias da Dinamarca do que em homens que não usavam.2
  • O uso eleva a pressão, o LDL e as enzimas do fígado, segundo uma meta-análise de 2025.3
  • A testosterona pode ficar baixa anos depois de parar: ex-usuários tinham testosterona menor e mais sintomas de hipogonadismo em média 2,5 anos após a interrupção.4
  • Se você usa ou usou, procure avaliação médica sem julgamento: há exames e cuidados que reduzem riscos.

Atualizado em outubro de 2026.

Esteroides anabolizantes são derivados sintéticos da testosterona usados para ganhar massa muscular.3 Fora do tratamento médico de deficiências hormonais, o uso estético e esportivo é comum nas academias — e os riscos, muitas vezes, são minimizados.

Este texto resume o que os estudos de maior qualidade mostram sobre os efeitos no coração, no fígado e nos hormônios. Não é um texto para julgar quem usa: é informação para decidir e, se for o caso, para procurar acompanhamento. A reposição de testosterona em homens com deficiência diagnosticada é outro assunto — veja testosterona baixa: quando tratar.

O que acontece com o coração

O estudo mais robusto acompanhou 1.189 homens flagrados por uso de anabolizantes em academias da Dinamarca, comparados a 59.450 homens da população geral com a mesma idade, por cerca de 11 anos.1

EventoRisco nos usuários (comparado com não usuários)
Infarto3,0 vezes maior
Angioplastia ou cirurgia de ponte de safena2,95 vezes maior
Trombose venosa ou embolia2,42 vezes maior
Arritmias2,26 vezes maior
Cardiomiopatia (doença do músculo do coração)8,9 vezes maior
Insuficiência cardíaca3,63 vezes maior

Os autores concluem que o uso de anabolizantes está associado a um risco substancialmente maior de doença cardiovascular.1 Lembrando que esses homens foram identificados em academias de ginástica.

Mortalidade e internações

Um estudo anterior, do mesmo país, comparou 545 homens com teste positivo para anabolizantes em academias com 5.450 homens sem uso.2

  • A mortalidade foi 3 vezes maior entre os usuários.2
  • Eles tiveram mais que o dobro de contatos hospitalares por ano (mediana de 0,81 contra 0,36).2
  • Acne, ginecomastia (crescimento das mamas) e disfunção erétil afetaram mais de 10% dos usuários.2

Os resultados se repetiram num segundo grupo, de homens que se recusaram a fazer o teste antidoping.2

O que muda nos exames

Uma meta-análise de 2025 reuniu estudos com atletas e praticantes de atividade física que usavam anabolizantes.3

  • Pressão arterial: cerca de 12 mmHg a mais na sistólica e 8 mmHg a mais na diastólica.3
  • LDL (“colesterol ruim”): cerca de 9 mg/dL a mais.3
  • Fígado: aumento das enzimas AST e ALT, sugerindo sobrecarga ou lesão hepática.3
  • Hormônios: queda importante da testosterona produzida pelo próprio corpo.3

E depois de parar?

O corpo diminui a própria produção de testosterona durante o uso — e ela nem sempre volta ao normal. Num estudo com homens que treinavam força:4

  • Ex-usuários, em média 2,5 anos depois de parar, tinham testosterona total e livre menor que homens que nunca usaram.4
  • 27% dos ex-usuários estavam abaixo do limite inferior de referência; nenhum dos não usuários estava.4
  • Os ex-usuários relataram com mais frequência sintomas depressivos, disfunção erétil e queda da libido.4
  • Nos usuários atuais, os marcadores ligados à produção de espermatozoides estavam muito reduzidos.4

Fertilidade e humor

Os dados sugerem que o impacto dos anabolizantes pode durar além do ciclo: produção de espermatozoides reduzida durante o uso e sintomas de hipogonadismo anos depois.4 Quem planeja ter filhos ou percebe mudanças de humor após parar deve procurar avaliação.

Como ler esses estudos

São estudos observacionais: mostram associação, não provam causa e efeito, e usuários de anabolizantes podem diferir dos não usuários em outros hábitos. Ainda assim, a consistência dos achados — no coração, nos exames, nos hormônios — e a força das associações tornam o sinal de alerta difícil de ignorar. Além disso, produtos comprados sem receita não têm garantia de composição nem de dose.

Se você usa ou já usou

Atenção: orientação prática

Os pontos abaixo são cuidados clínicos gerais, não resultados dos estudos citados.

  • Procure um médico e conte sobre o uso. O atendimento é sigiloso, e saber o que foi usado muda a avaliação.
  • Faça avaliação cardiovascular: pressão, perfil lipídico, eletrocardiograma e, conforme o caso, ecocardiograma.
  • Avalie fígado, hematócrito e hormônios.
  • Não pare ou inicie hormônios por conta própria para “recuperar o eixo”; isso deve ser planejado com o médico.
  • Para ganhar músculo com segurança, treino bem planejado, proteína suficiente e sono funcionam — veja quantas séries por semana para hipertrofia e creatina.

Perguntas frequentes sobre anabolizantes

Anabolizante faz mal ao coração?

Os estudos indicam que sim. Num acompanhamento de 11 anos na Dinamarca, usuários tiveram cerca de 3 vezes mais infarto e insuficiência cardíaca e quase 9 vezes mais cardiomiopatia do que homens da população geral.

Anabolizante aumenta a pressão?

Sim. Uma meta-análise de 2025 mostrou aumento médio de cerca de 12 mmHg na pressão sistólica e 8 mmHg na diastólica em usuários de anabolizantes.

A testosterona volta ao normal depois de parar o anabolizante?

Nem sempre. Num estudo, ex-usuários tinham testosterona mais baixa e mais sintomas de hipogonadismo em média 2,5 anos após parar, e 27% estavam abaixo do limite de referência.

Anabolizante causa infertilidade?

Pode prejudicar a produção de espermatozoides. Num estudo, usuários atuais tinham marcadores muito reduzidos de produção de espermatozoides.

Quem usou anabolizante deve fazer quais exames?

A avaliação é individual, mas costuma incluir pressão arterial, perfil lipídico, função do fígado, hematócrito, hormônios e avaliação cardíaca, como eletrocardiograma e, conforme o caso, ecocardiograma.

Referências

  1. Windfeld-Mathiasen J, Heerfordt IM, Dalhoff KP, Andersen JT, Andersen MA, Johansson KS, et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation. 2025;151(12):828-834. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071117
  2. Horwitz H, Andersen JT, Dalhoff KP. Health consequences of androgenic anabolic steroid use. J Intern Med. 2019;285(3):333-340. doi:10.1111/joim.12850
  3. Mingxing L, Yanfei Y. Adverse Effects of Anabolic Androgenic Steroid Abuse in Athletes and Physically Active Individuals: A Systematic Review and Meta-Analysis. Subst Use Misuse. 2025;60(6):873-887. doi:10.1080/10826084.2025.2460986
  4. Rasmussen JJ, Selmer C, Østergren PB, Pedersen KB, Schou M, Gustafsson F, et al. Former Abusers of Anabolic Androgenic Steroids Exhibit Decreased Testosterone Levels and Hypogonadal Symptoms Years after Cessation: A Case-Control Study. PLoS One. 2016;11(8):e0161208. doi:10.1371/journal.pone.0161208
Dr. Carlos O. Magno
Sobre o autor

Dr. Carlos O. Magno

Médico (CRM-SP 270302), residente em Medicina Esportiva pela Universidade de São Paulo (USP) e graduado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Atua com Medicina Esportiva e Medicina do Estilo de Vida na Vila Madalena, em São Paulo.

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Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação médica individual. Não inicie, suspenda ou altere tratamentos sem orientação profissional.

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