Exercício para hipertensão e diabetes: o que fazer e o que evitar

Prescrição de exercício para pressão alta e diabetes tipo 2 segundo a diretriz brasileira e o posicionamento ADA/ACSM: quanto, como, e os limites de segurança.

Dr. Carlos O. MagnoMédico · CRM-SP 270302 · Residente em Medicina Esportiva — USP
Exercício para hipertensão e diabetes tipo 2: o que a diretriz recomenda — guia do Dr. Carlos O. Magno, CRM-SP 270302

Resposta rápida

  • Exercício é tratamento, não só “faz bem”. Há evidência forte de que a atividade física reduz a pressão arterial em pessoas com pressão normal, pré-hipertensão e hipertensão, e reduz o risco de progressão da doença cardiovascular em quem tem hipertensão.1
  • Pressão alta: a diretriz brasileira recomenda exercício aeróbico moderado de 30 a 60 minutos, 3 a 5 vezes por semana, complementado por musculação 2 a 3 vezes por semana.4 Sim, quem tem pressão alta pode fazer musculação.
  • Diabetes tipo 2: o posicionamento ADA/ACSM recomenda pelo menos 150 minutos por semana de aeróbico moderado a vigoroso, em pelo menos 3 dias, sem passar mais de 2 dias seguidos sem atividade, mais treino de força 2 a 3 dias por semana.6
  • Efeito no açúcar: o exercício estruturado reduziu a hemoglobina glicada em 0,67 ponto percentual, e quem fez mais de 150 minutos por semana teve queda maior (0,89 contra 0,36).7
  • Não substitui os remédios por conta própria. O efeito do exercício sobre a pressão de quem é hipertenso é comparável ao de alguns anti-hipertensivos, mas essa comparação é indireta e os estudos têm limitações.3 Nunca suspenda medicação sem orientação médica.

Atualizado em setembro de 2026.

Pressão alta e diabetes tipo 2 estão entre as condições crônicas mais comuns, muitas vezes na mesma pessoa. Em ambas, a recomendação de “fazer exercício” aparece em qualquer consulta — mas quase sempre sem dizer qual exercício, quanto, com que intensidade e com que cuidados. É essa lacuna que este guia tenta preencher.

Ele se baseia na Diretriz Brasileira de Hipertensão 2020, no posicionamento conjunto do Colégio Americano de Medicina do Esporte e da Associação Americana de Diabetes, e em metanálises e ensaios clínicos, todos listados nas referências. Não substitui avaliação médica: quem tem essas condições deve ter as doses e os limites definidos de forma individual.

Por que exercício é tratamento

A Organização Mundial da Saúde recomenda que todos os adultos façam de 150 a 300 minutos de atividade aeróbica moderada por semana (ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa) e atividades de fortalecimento muscular regulares. As diretrizes de 2020 incluem pela primeira vez recomendações específicas para pessoas com condições crônicas, e reafirmam que qualquer atividade é melhor do que nenhuma.11

Para a pressão arterial, uma revisão de revisões — 17 metanálises e uma revisão sistemática, com 594.129 adultos — encontrou evidência forte de que a atividade física reduz a pressão em pessoas com pressão normal, pré-hipertensão e hipertensão, e reduz o risco de progressão de doença cardiovascular em quem tem hipertensão.1 A diretriz brasileira acrescenta que hipertensos que atingem as recomendações de atividade física têm uma redução de 27% a 50% no risco de mortalidade, e que níveis menores de atividade também trazem benefício.4

Para o diabetes tipo 2, o posicionamento ADA/ACSM afirma que a atividade física regular melhora o controle da glicose e pode prevenir ou retardar o diabetes tipo 2, além de influenciar positivamente lipídios, pressão arterial, eventos cardiovasculares, mortalidade e qualidade de vida. A maior parte do benefício vem de melhorias agudas e crônicas na ação da insulina, obtidas tanto com treino aeróbico quanto com treino de força.6

Hipertensão: quanto o exercício baixa a pressão

Em pessoas hipertensas, o treino aeróbico reduz a pressão em cerca de 8 a 12 mmHg na sistólica, dependendo da metanálise e da forma de medir. Duas fontes dão a dimensão:

Tipo de treinoRedução na pressão de hipertensos (sistólica/diastólica)Fonte
Aeróbico−12,3/−6,1 mmHg (consultório) e −8,8/−4,9 mmHg (monitorização ambulatorial)Diretriz Brasileira 20204
Aeróbico−8,3/−5,2 mmHgMetanálise de Cornelissen e Smart2
Resistido dinâmico (musculação)−5,7/−5,2 mmHgDiretriz Brasileira 20204
Isométrico de preensão manual (handgrip)−6,5/−5,5 mmHgDiretriz Brasileira 20204
Valores de estudos diferentes, com métodos diferentes: servem para dar ordem de grandeza, não para comparar linha a linha.

A metanálise de Cornelissen e Smart, com 93 ensaios clínicos e 5.223 participantes, tem outro achado útil: o efeito é maior em quem tem a pressão mais alta. O treino aeróbico reduziu a pressão em 8,3/5,2 mmHg nos hipertensos, contra 2,1/1,7 em pré-hipertensos e 0,75/1,1 em pessoas com pressão normal.2 O consenso mais antigo da ACSM descreve também que, em hipertensos, a pressão cai entre 5 e 7 mmHg após uma única sessão ou após um período de treino, e permanece reduzida por até 22 horas depois de um exercício aeróbico.5

Um detalhe que a diretriz brasileira faz questão de registrar: o treino aeróbico tem efeito comprovado sobre a pressão de consultório e também sobre a ambulatorial (MAPA), enquanto o resistido dinâmico e o isométrico reduzem a pressão de consultório, mas não há evidência de que reduzam a pressão ambulatorial.4 Na prática, isso reforça o aeróbico como base do tratamento.

Hipertensão: o que fazer, na prática

A prescrição da diretriz brasileira para hipertensos tem duas partes, com grau de recomendação I e nível de evidência A:4

 Treino aeróbico (base do plano)Treino resistido (complementar)
Frequência3 a 5 vezes por semana (quanto mais vezes, melhor)2 a 3 vezes por semana
Duração e volume30 a 60 minutos por sessão (quanto mais tempo, melhor)8 a 10 exercícios para os principais grupos musculares; 1 a 3 séries de 10 a 15 repetições; prioridade para execução unilateral, quando possível
IntensidadeModerada (critérios abaixo)Cerca de 60% de 1RM, até fadiga moderada (repetição em que a velocidade do movimento começa a cair)
Pausas—Passivas e longas, de 90 a 120 segundos
ExemplosAndar, correr, dançar, nadar, entre outrasMusculação
Fonte: Diretriz Brasileira de Hipertensão 2020.4

Como saber se a intensidade é “moderada”? A diretriz oferece três critérios que se somam:4

  • Teste da conversa: a maior intensidade em que você consegue conversar, sem ficar ofegante.
  • Escala de Borg: sentir-se entre “ligeiramente cansado” e “cansado” — 11 a 13 na escala de 20 pontos.
  • Frequência cardíaca: manter-se entre 40% e 60% da reserva cardíaca, calculada como (FC máxima − FC de repouso) × porcentagem + FC de repouso.

Um alerta sobre o terceiro critério: a frequência cardíaca máxima ideal vem de um teste ergométrico feito com os medicamentos de uso habitual. A fórmula “220 menos a idade” não deve ser usada em hipertensos com doença cardíaca, em uso de betabloqueadores ou de bloqueadores de canal de cálcio não di-hidropiridínicos.4

Uma última recomendação, de menor força de evidência (nível B), mas simples: levantar por 5 minutos a cada 30 minutos sentado para reduzir o comportamento sedentário.4

Pressão alta pode fazer musculação?

Pode, e a diretriz brasileira recomenda. A musculação entra como complemento do aeróbico, 2 a 3 vezes por semana, com 8 a 10 exercícios, 1 a 3 séries de 10 a 15 repetições e pausas passivas longas.4

Os números ajudam a desfazer o mito de que peso é “proibido” para hipertenso. Na metanálise de Cornelissen e Smart, o treino resistido dinâmico reduziu a pressão sistólica em 1,8 mmHg e a diastólica em 3,2 mmHg no conjunto dos adultos, e o treino isométrico teve a maior redução de pressão sistólica (−10,9 mmHg) — embora baseada em um número pequeno de estudos, com apenas 5 grupos.2

O que caracteriza a prescrição da diretriz é o formato: cargas moderadas (cerca de 60% de 1RM), séries de 10 a 15 repetições até fadiga moderada e pausas passivas longas. Os limites de pressão para treinar estão na seção de segurança, mais abaixo.

Exercício substitui o remédio para pressão?

Não. E quem tem indicação de medicação não deve parar por conta própria. Mas a pergunta merece uma resposta com números.

Uma metanálise em rede reuniu 391 ensaios clínicos randomizados — 197 com exercício (10.461 participantes) e 194 com medicamentos anti-hipertensivos (29.281 participantes) — para comparar os efeitos sobre a pressão sistólica. Os pontos principais:3

  • Em hipertensos, não houve diferença detectável no efeito sobre a pressão sistólica entre inibidores da ECA, bloqueadores de angiotensina, betabloqueadores e diuréticos, de um lado, e exercício aeróbico ou resistido dinâmico, de outro.
  • Somando todas as populações, porém, os medicamentos reduziram mais a pressão do que o exercício (diferença média de 3,96 mmHg).
  • Todos os tipos de exercício e todas as classes de anti-hipertensivos foram efetivos em relação ao controle.

As limitações que os próprios autores apontam

Nenhum ensaio comparou exercício e medicamento diretamente. A comparação é indireta. Todos os estudos de medicação incluíram hipertensos, mas só 56 estudos de exercício (3.508 pessoas) tinham participantes com pressão de 140 mmHg ou mais. E os estudos de exercício tinham maior risco de viés, principalmente por falta de cegamento e dados incompletos. Os autores concluem que o efeito do exercício em hipertensos parece semelhante ao de medicamentos comuns, mas que isso precisa ser avaliado em contextos reais.3 A leitura prática: exercício e medicação se somam; um não é desculpa para abandonar o outro.

Hipertensão: cuidados de segurança

Para a maior parte das pessoas hipertensas, exercício moderado é seguro. A diretriz brasileira estabelece os limites:4

  • Atividade leve a moderada em quem não tem doença cardíaca, cerebrovascular ou renal: pode-se dispensar avaliação médica prévia. Se surgirem sintomas durante a prática, interrompa e procure um médico.
  • Avaliação médica prévia para quem tem comorbidades, sintomas, ou pretende fazer atividades de alta intensidade ou competitivas. O teste ergométrico é recomendado para avaliar aptidão física, prescrever o exercício e ver como a pressão responde ao esforço.
  • Não faça a sessão se a pressão estiver acima de 160/105 mmHg. Em hipertensos que reagem com picos de pressão, recomenda-se medir a pressão durante o aeróbico e reduzir a intensidade se passar de 180/105 mmHg (grau IIa, evidência C).

O consenso mais antigo da ACSM acrescenta que pessoas com hipertensão controlada e sem complicações cardiovasculares ou renais podem fazer exercício, mas devem ser avaliadas, tratadas e monitoradas de perto; o teste de esforço pode ser adequado antes de exercício vigoroso, sobretudo em homens acima de 45 e mulheres acima de 55 anos. Enquanto a avaliação formal não acontece, é razoável para a maioria começar com exercício de intensidade moderada, como caminhada.5

O modelo atual da ACSM para triagem antes de exercitar-se olha três fatores: o nível de atividade atual, a presença de sinais ou sintomas ou de doença cardiovascular, metabólica ou renal conhecida, e a intensidade desejada. Seu objetivo é reduzir barreiras desnecessárias à prática: os autores destacam que o exercício é seguro para a maioria e que eventos cardiovasculares costumam ser precedidos por sinais de alerta.12

Outras modalidades: promissoras, mas ainda sem aval da diretriz

Exercício em meio líquido, ioga, tai chi chuan e treino intervalado de alta intensidade também parecem reduzir a pressão de consultório de hipertensos. Mas, segundo a diretriz brasileira, não há evidência documentada de efeito sobre a pressão ambulatorial nem de seus riscos, e por isso elas ainda não são recomendadas como tratamento.4 Isso não as torna proibidas: significa que não devem substituir o aeróbico e o resistido nas doses acima.

Diabetes tipo 2: quanto o exercício baixa a glicose

A hemoglobina glicada (HbA1c) cai em média 0,67 ponto percentual com exercício estruturado, e o efeito é maior com mais de 150 minutos por semana. Esse é o resultado de uma metanálise de 47 ensaios clínicos randomizados, com 8.538 pacientes, conduzida por um grupo de Porto Alegre.7

IntervençãoQueda na HbA1c em relação ao controle
Exercício estruturado (geral)−0,67 ponto percentual
Aeróbico estruturado−0,73
Resistido estruturado−0,57
Aeróbico + resistido−0,51
Mais de 150 min/semana de exercício estruturado−0,89
150 min/semana ou menos−0,36
Só conselho de atividade física, sem dietaSem mudança associada
Conselho de atividade física + conselho alimentar−0,58
Metanálise de 47 ensaios, 8.538 pacientes. Os resultados tiveram alta heterogeneidade entre estudos.7

Dois recados práticos saem dessa tabela. Primeiro, a dose importa: passar de 150 minutos semanais se associou a uma queda mais de duas vezes maior. Segundo, “fazer mais atividade” como conselho genérico não funcionou sozinho — só se associou a queda da HbA1c quando combinado a orientação alimentar. Exercício estruturado, com plano, é diferente de recomendação vaga.

Um ensaio clínico americano comparou as modalidades diretamente. 262 adultos sedentários com diabetes tipo 2 (HbA1c média de 7,7%) fizeram 9 meses de aeróbico, resistido ou combinação dos dois. Só a combinação reduziu a HbA1c de forma estatisticamente significativa em relação ao grupo sem exercício (−0,34 ponto; intervalo de confiança de 95%: −0,64 a −0,03). O aeróbico isolado (−0,24) e o resistido isolado (−0,16) não alcançaram significância, e só o grupo da combinação melhorou o consumo máximo de oxigênio. Todos os grupos reduziram a circunferência da cintura.8

Como conciliar os dois estudos? A metanálise mostra que cada modalidade, isolada, se associa a queda da HbA1c; o ensaio mostra que, quando comparadas lado a lado em uma amostra específica, a combinação foi a que se destacou. Ambos apontam para o mesmo lugar: combinar aeróbico e força é uma aposta segura, e o posicionamento ADA/ACSM diz o mesmo — a combinação pode ser mais eficaz para o controle da glicose do que cada tipo isolado.6

Diabetes: o que fazer, na prática

O posicionamento conjunto ADA/ACSM, com graus de evidência B para as recomendações principais, define:6 O documento é de 2010; a ADA publicou uma versão atualizada em 2016 e revisa suas recomendações todos os anos, então vale confirmar com o seu médico se algum ponto mudou.

ComponenteRecomendação para diabetes tipo 2
AeróbicoPelo menos 150 minutos por semana, de intensidade moderada a vigorosa, distribuídos em pelo menos 3 dias
IntervaloNão passar mais de 2 dias consecutivos sem atividade aeróbica
ResistidoIntensidade moderada a vigorosa, pelo menos 2 a 3 dias por semana
Combinação e supervisãoTreino combinado e supervisionado pode trazer benefícios adicionais
Atividade no dia a diaAumentar a atividade total diária não estruturada
FlexibilidadePode ser incluída, mas não no lugar dos outros tipos
Fonte: posicionamento ADA/ACSM.6

Três detalhes do mesmo documento merecem destaque:6

  • Treino supervisionado se associou a maior adesão e melhor controle da glicose do que treino sem supervisão (evidência B).
  • Formas mais leves de exercício, como ioga e tai chi, tiveram resultados mistos.
  • Para perder peso só com exercício, pode ser necessário chegar a até 60 minutos por dia (evidência C). É um dos motivos pelos quais alimentação e exercício andam juntos.

Como o mesmo documento registra, o exercício age por dois caminhos: melhora a ação da insulina e, durante a contração, o músculo capta glicose por uma via separada, que não é prejudicada pela resistência à insulina. O efeito agudo sobre a ação da insulina dura de 2 a 72 horas, o que é coerente com a recomendação de não passar mais de 2 dias seguidos sem atividade.6

Pré-diabetes: dá para evitar o diabetes?

Dá — e o estudo que provou isso é um dos mais importantes da área. O Diabetes Prevention Program sorteou 3.234 pessoas com glicose elevada, sem diabetes, para placebo, metformina ou um programa de mudança de estilo de vida com meta de pelo menos 7% de perda de peso e pelo menos 150 minutos de atividade física por semana.9

Em 2,8 anos de acompanhamento médio, a incidência de diabetes foi de 11,0, 7,8 e 4,8 casos por 100 pessoas-ano nos grupos placebo, metformina e estilo de vida. O estilo de vida reduziu a incidência em 58% (intervalo de confiança de 95%: 48 a 66%) e a metformina em 31%; o estilo de vida foi significativamente mais eficaz do que a metformina. Foi preciso tratar 6,9 pessoas com o programa para evitar um caso em 3 anos, contra 13,9 com metformina.9

O posicionamento ADA/ACSM recomenda pelo menos 2,5 horas por semana de atividade moderada a vigorosa como parte das mudanças de estilo de vida para prevenir o diabetes tipo 2 em adultos de alto risco (evidência A).6 Repare que, no DPP, a perda de peso e o exercício foram parte do mesmo pacote — o estudo não separa a contribuição de cada um.

Diabetes: cuidados de segurança

Exercício é benéfico para quem tem diabetes, mas alguns cuidados dependem do tratamento e das complicações. Segundo o posicionamento ADA/ACSM:6

SituaçãoO que o posicionamento recomenda
HipoglicemiaQuem não usa insulina nem secretagogos de insulina dificilmente tem hipoglicemia relacionada ao exercício. Quem usa esses medicamentos deve complementar com carboidrato conforme necessário, durante e depois do exercício, e pode precisar de ajuste de dose, definido pelo médico
Glicemia muito altaÉ possível se exercitar, com cautela, com glicemia acima de 300 mg/dl (16,7 mmol/l) sem cetose, desde que a pessoa se sinta bem e esteja bem hidratada
Outros medicamentosA maioria dos medicamentos usados para outros problemas não afeta o exercício, com exceção de betabloqueadores, alguns diuréticos e estatinas
Doença cardiovascularNão é contraindicação absoluta. Quem tem angina de risco moderado ou alto deve começar em programa supervisionado de reabilitação cardíaca. Atividade física é indicada para quem tem doença arterial periférica
Neuropatia periféricaSem úlcera ativa, pode fazer exercício moderado com descarga de peso. Recomenda-se inspeção diária dos pés e calçado adequado. Caminhada moderada provavelmente não aumenta o risco de úlceras
Neuropatia autonômica cardíacaDeve ser rastreada, com aprovação médica e possivelmente teste de esforço antes de começar. A intensidade é prescrita pela reserva de frequência cardíaca, com medida direta da frequência máxima
Retinopatia proliferativa não controladaEvitar atividades que aumentem muito a pressão intraocular e o risco de hemorragia
Doença renalExercício melhora função física e qualidade de vida, e pode ser feito até durante a diálise. Microalbuminúria, por si só, não exige restrições
Graus de evidência variam entre B e E; as recomendações de retinopatia e de glicemia elevada são as de menor evidência.6

Sobre a avaliação antes de começar, o documento diz que, antes de um exercício mais intenso do que caminhada rápida, pessoas sedentárias com diabetes tipo 2 provavelmente se beneficiam de avaliação médica. O teste de esforço com eletrocardiograma não é recomendado para quem não tem sintomas e tem baixo risco de doença coronariana, mas pode estar indicado em quem tem risco maior.6

Um exemplo de semana

Para quem tem hipertensão, diabetes ou os dois — o que é comum —, os parâmetros se sobrepõem bem. Abaixo, uma semana ilustrativa que respeita as duas diretrizes: mais de 150 minutos de aeróbico em 4 dias, treino de força em 2 dias e nunca mais de 2 dias seguidos sem atividade aeróbica. É um exemplo de como os números se encaixam, não uma prescrição: ele pressupõe um adulto sem complicações e já liberado pelo médico.

DiaAtividade
SegundaAeróbico moderado, 40 minutos
TerçaForça: 8 a 10 exercícios, 1 a 3 séries de 10 a 15 repetições
QuartaAeróbico moderado, 40 minutos
QuintaForça: 8 a 10 exercícios, 1 a 3 séries de 10 a 15 repetições
SextaAeróbico moderado, 40 minutos
SábadoAeróbico moderado, 45 minutos
DomingoDescanso ou caminhada leve
Total de aeróbico: 165 minutos em 4 dias. Intensidade moderada: consegue conversar sem ficar ofegante, ou entre 11 e 13 na escala de Borg. Em todos os dias, levantar 5 minutos a cada 30 minutos sentado.46

O que o exercício não faz

Para não vender mais do que a evidência entrega, três limites importantes:

  • Exercício sozinho costuma não bastar para emagrecer. O posicionamento ADA/ACSM registra que as quantidades recomendadas de atividade podem ajudar na perda de peso, mas que pode ser necessário chegar a até 60 minutos por dia quando se depende só do exercício.6 O guia de como emagrecer com saúde mostra por que alimentação e exercício se complementam.
  • Exercício não é dispensa de medicação. A comparação com os anti-hipertensivos é indireta, e os estudos de exercício em hipertensos têm limitações.3
  • Um programa intensivo de estilo de vida não garantiu menos infartos e AVCs. No estudo Look AHEAD, com 5.145 adultos com sobrepeso ou obesidade e diabetes tipo 2, o programa intensivo — que combinava redução de calorias e mais atividade física — levou a maior perda de peso, maior redução da hemoglobina glicada e melhora inicial da capacidade física e dos fatores de risco cardiovascular, com exceção do LDL. Mas o estudo foi interrompido por futilidade: os eventos cardiovasculares não diminuíram (taxa de 1,83 contra 1,92 por 100 pessoas-ano; razão de risco de 0,95, intervalo de confiança de 95%: 0,83 a 1,09).10

Esse último dado não diz que exercício “não funciona”. O Look AHEAD testou um pacote de emagrecimento — não exercício isolado —, e a perda de peso diminuiu ao longo do tempo (de 8,6% no primeiro ano para 6,0% ao fim do estudo, contra 0,7% e 3,5% no grupo controle), como discuto no artigo sobre efeito sanfona.10 O que ele mostra é que os benefícios comprovados do exercício são sobre pressão, glicose, capacidade física e qualidade de vida — e que a redução de eventos cardiovasculares depende de um tratamento que vai além.

Avaliação antes de começar

Você não precisa esperar uma bateria de exames para começar a caminhar. Mas há situações em que a avaliação prévia faz diferença:

  • Você tem doença cardíaca, cerebrovascular ou renal, ou sintomas como dor no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, tontura ou desmaio.
  • Você é sedentário e pretende ir além de uma caminhada rápida, sobretudo se tem diabetes.
  • Você quer fazer atividade de alta intensidade ou competitiva.
  • Você usa insulina ou secretagogos de insulina, ou tem complicações como neuropatia, retinopatia ou doença renal.
  • Sua pressão passa de 160/105 mmHg com frequência: nesse patamar a diretriz recomenda não treinar, e é um sinal para rever o tratamento com o médico.

Em geral, a avaliação envolve história clínica, revisão dos medicamentos, medida da pressão, exame físico e, quando indicado, exames laboratoriais e teste ergométrico, que ajuda a prescrever a intensidade e a ver como a pressão responde ao esforço.4

Como é o acompanhamento

Sou médico e residente em Medicina Esportiva pela USP. É comum que quem convive com pressão alta ou diabetes ouça “faça exercício” sem um plano. O acompanhamento serve para transformar isso em uma prescrição individual: qual modalidade, quanto, em que intensidade, o que fazer com os medicamentos nos dias de treino e quais sinais interromper.

Para quem quer entender também o lado do músculo, o guia de recomposição corporal explica como montar o treino de força, e o de dor no joelho mostra que, mesmo com artrose, exercício é tratamento.

Perguntas frequentes sobre exercício, hipertensão e diabetes

Qual o melhor exercício para hipertensão?

A base é o exercício aeróbico moderado, como caminhar, correr, pedalar, nadar ou dançar, por 30 a 60 minutos, 3 a 5 vezes por semana, complementado por musculação 2 a 3 vezes por semana. O aeróbico tem efeito comprovado sobre a pressão de consultório e a ambulatorial, segundo a Diretriz Brasileira de Hipertensão 2020.

Quem tem pressão alta pode fazer musculação?

Pode. A diretriz brasileira recomenda musculação como complemento do aeróbico, 2 a 3 vezes por semana, com 8 a 10 exercícios, 1 a 3 séries de 10 a 15 repetições, cerca de 60% de 1RM e pausas passivas de 90 a 120 segundos. A sessão não deve ser feita se a pressão estiver acima de 160/105 mmHg.

Quanto o exercício reduz a pressão arterial?

Em hipertensos, o treino aeróbico reduz a pressão sistólica em cerca de 8 a 12 mmHg, dependendo do estudo e do método de medida. O treino resistido dinâmico e o isométrico de preensão manual reduzem cerca de 6 mmHg de sistólica, segundo a diretriz brasileira.

Exercício substitui o remédio para pressão?

Não. Em uma metanálise em rede, o efeito do exercício sobre a pressão sistólica de hipertensos foi semelhante ao de alguns anti-hipertensivos, mas a comparação foi indireta, e somando todas as populações os medicamentos reduziram mais a pressão. Não suspenda medicação sem orientação médica.

Qual o melhor exercício para diabetes tipo 2?

A combinação de aeróbico e treino de força. O posicionamento ADA/ACSM recomenda pelo menos 150 minutos por semana de aeróbico moderado a vigoroso, em pelo menos 3 dias, sem mais de 2 dias seguidos sem atividade, mais treino de força 2 a 3 dias por semana. Em um ensaio clínico, só a combinação reduziu de forma significativa a hemoglobina glicada.

Diabético pode fazer musculação?

Pode. O treino de força faz parte da recomendação para diabetes tipo 2, em 2 a 3 dias por semana, e o treino resistido isolado reduziu a hemoglobina glicada em 0,57 ponto percentual em uma metanálise. Quem tem retinopatia proliferativa não controlada deve evitar atividades que aumentem muito a pressão intraocular, e quem usa insulina ou secretagogos precisa de atenção à hipoglicemia.

Quanto o exercício baixa a glicose e a hemoglobina glicada?

Em uma metanálise de 47 ensaios, o exercício estruturado reduziu a hemoglobina glicada em 0,67 ponto percentual. Mais de 150 minutos por semana se associaram a queda de 0,89, contra 0,36 com 150 minutos ou menos.

Exercício causa hipoglicemia em quem tem diabetes?

Quem não usa insulina nem secretagogos de insulina dificilmente tem hipoglicemia relacionada ao exercício. Quem usa esses medicamentos deve complementar com carboidrato conforme necessário, durante e depois da atividade, e pode precisar de ajuste de dose orientado pelo médico.

Com que pressão eu não devo treinar?

A diretriz brasileira recomenda não realizar a sessão de treinamento se a pressão estiver acima de 160/105 mmHg. Em hipertensos com picos de pressão, recomenda medir a pressão durante o aeróbico e reduzir a intensidade se ela passar de 180/105 mmHg.

Preciso de avaliação médica antes de começar?

Para atividade leve a moderada em quem não tem doença cardíaca, cerebrovascular ou renal, a diretriz brasileira permite dispensar avaliação prévia; se surgirem sintomas, interrompa e procure um médico. Quem tem comorbidades, sintomas ou pretende fazer atividade intensa ou competitiva deve ser avaliado antes. Em diabetes, sedentários que vão além da caminhada rápida provavelmente se beneficiam de avaliação.

Referências

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Dr. Carlos O. Magno
Sobre o autor

Dr. Carlos O. Magno

Médico (CRM-SP 270302), residente em Medicina Esportiva pela Universidade de São Paulo (USP) e graduado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Atua com Medicina Esportiva e Medicina do Estilo de Vida na Vila Madalena, em São Paulo.

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